Mães no Canadá: Criando filhos bilíngues

Essa com certeza é uma das maiores preocupações dos pais que vão sair do Brasil e também foi algo que pesquisei bastante antes de saírmos do Brasil.

Definitivamente essa não é uma tarefa fácil, ainda mais para quem tem filhos que já nasceram no exterior ou que se mudaram cedo, principalmente antes da alfabetização. Exige paciência e principalmente força de vontade dos pais, já que vai depender de nós expor as crianças ao idioma materno.

Um dos erros mais comun que vejo é a família querer incentivar a criança a aprender a língua nova mudando a língua usada na comunicação familar, e isso é apontado como errado por todos os especialistas que já vi falando sobre o assunto. O que vai fazer a criança aprender é viver na nova língua, conviver com o idioma.
Demora para ela aprender ? Depende ! Não se frustre comparando seu filho com os outros. Cada um tem seu tempo, assim como para andar, dormir sozinho, sair das fraldas e começar a falar. não tem como comparar uma criança com a outra.

Como funciona lá em casa ?

Português SEMPRE entre nós, não tem opção. Giovanna veio com 8 anos, alfabetizada, e depois de 3 anos é visível a perda dela de vocabulário e de gramática, já que a escrita é até injusto falar, visto que estudamos isso na escola por muitos e muitos anos. Mas pra escrita a tecnologia ajuda na correção de alguns erros. O que eu sempre digo que ela não pode perder é a familiaridade com as palavras e com a língua.

Não costuma demorar para que as crianças começem a apresentar problemas com o português, mesmo com a gente falando só português em família e o que eu posso dizer é: insista !
A Gi deu os primeiros indícios ao ter dificuldade para me contar algo que tinha acontecido na escola, em inglês, e que muitas vezes envolvia um vocabulário que ela não aprendeu ou não usou muito em português. Então na hora de traduzir começavam os problemas. Eu lembro claramente de uma das primeiras dificuldades que ela teve: me dizer que eles tinham que “empilhar” as cadeiras no final da aula e tal aluno não fez, ou algo do tipo. Empilhar não era uma palavra que ela conheci  a. E o que eu fiz? Poderia ter aceitado o “stack the chairs”, já que eu entendi o que ela queria dizer. Mas não, quis que ela tentasse me explicar a ação, que achasse uma forma de descrever o que tinha acontecido… vasculhar na cabeça dela algo que ajudasse. Qual foi o resultado? Colocar uma cadeira em cima da outra ao invez de empilhar. Claro que essa não é a maneira mais correta para essa ação, mas dessa forma ela conseguia expressar o que ela queria, em português, que era o meu objetivo.

Depois disso vários outros episódios parecidos aconteceram, e a estratégia foi sempre a mesma: não aceitar a palavra em inglês e chegar a um resultado em português.
E pra isso ser um sucesso, nós também precisamos ser exemplo. Eu muitas vezes esqueço as palavras em português, ou tenho dificuldade em achar uma tradução legal, como por exemplo para a expressão “by donation”, então é um esforço que eu também faço no meu dia a dia, de me policiar e expor ela ao máximo de vocabulário em português. O hábito que já tínhamos no Brasil de discutir assuntos variados como política e economia também ajuda muito nessa formação do vocabulário em português, já que esses assuntos também são discutidos em inglês na escola.

Sobre o vocabulário que ela não tinha quando veio pro Canadá, a gente percebe no cotidiano, com as traduções que ela faz: “chemistry” foi uma dificuldade para virar “química”, já que não era uma matéria que ela tinha na escola, e eu tive que ajudar, não saiu química de jeito nenhum ! Também acontecem muitas conjugações verbais erradas, que eu sempre vou lá e falo a forma certa, sem brigar ou cobrar que ela não erre. E algumas palavras a gente até implica e brinca com ela, como com “filha de considerância” ao invéz de filha de consideração…rs .. essa ela falou e repetiu cheia de certeza ! A gente ri, brinca e fala a palavra certa… e assim seguimos.

Quando pensamos nas crianças que vieram ou 1 ou 2 anos, ou mesmo nas que já nasceram fora do país, é que o desafio aumenta, já que a única exposição que terão ao português é com a família. Vale o esforço ? Me responde, você quer um filho que fala 1 ou 2 línguas ? Você quer que seu filho se comunique com a família que ficou no Brasil ? Então depende muito de você ! Como eu disse lá no começo, não é fácil, mas eu acho que é algo necessário. Não me imagino tendo um filho que não consiga se comunicar com os avós, por exemplo. Essa possibilidade nunca seria aceita lá em casa.

Use e abuse da tecnologia a seu favor , exponha a criança aos desenhos em português, filmes, músicas, além da conversa entre vocês. No meu caso ela já não funciona a meu favor mais, já que as referências atuais dela são em inglês e eu não consigo mais escolher o que ela assiste, lê ou escuta … rs … e nem seria justo com ela, já que são os assuntos que ela tem com as amigas na escola.

E acredite: se você deixar a criança se expressar em inglês, quando você menos perceber ela já não cobseguirá mais se expressar em português e para retomar isso dará muito mais trabalho. Falo isso por pesquisar e também pela vivência de 3 anos morando fora e conhecendo centenas de famílias brasileiras aqui e mais muitas pelo mundo.  A gente tende a achar bonitinho a criança falando em inglês (ou qualquer outra língua) e esse é um dos maiores erros que você pode cometer caso queira que seu filho seja bilíngue.

Existem também muitos estudos que enfatizam o quão benéfico é para o cérebro das crianças falar mais de uma língua, como nessas reportagens, que citam estudos científicos
Cientistas identificam as vantagens de um bebê bilíngue
Vantagens do bilinguismo na infância
Bilíngues têm vantagens no aprendizado

Essa foi a forma que funcionou na minha casa, com a minha família, na nossa realidade, tentando seguir a orientação unânime dos profissionais, do Brasil e do Canadá, de se manter a língua materna em casa. Até no primeiro “boletim” que recebi da Giovanna da professora que dá aula extra de inglês para ela na escola (para ela e para todas as outras crianças que não tem o inglês como primeira língua. De forma gratuíta, na escola pública): o inglês dela evoluiu, mas não deixe de falar a língua materna em casa.

Como não funciona igual com todas as crianças, dá uma olhada nas experiências das outras mães do Projeto Mães no Canadá:

 

Adriane Jungues (Ottawa/Ontario) Like a New Home 
Alessandra Schneider (Bathurst/New Brunswick) Canadiando
Amanda Aron (Winnipeg/Manitoba) Viva Manitoba 
Beatriz Ortiz (Vancouver/British Columbia) Biba Cria 
Carol Almeida (Mississauga/Ontario) Minha Neve e Cia 
Carol Camanho (Vancouver/British Columbia) Fala Maluca
Danielle Vidal (Toronto/Ontario) VidalNorte
Gabriela Ghisi (Toronto/Ontario) Gaby no Canada
Mariana Baltar (Calgary/Alberta) De bem com a vida no Canadá
Vanessa Adell (Calgary/Alberta) Partiu Canada

By | 2018-12-20T23:42:31+00:00 dezembro 20th, 2018|Categories: British Columbia, Canadá, Mães no Canadá, Vida no Canadá|0 Comments

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Renata Luppi: Mãe, esposa, filha, irmã mais velha, inquieta, curiosa, viciada em chocolate e coca-cola e, acima de tudo, cheia de manias !!!

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